terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O Risco da Vingança Popular

No começo do filme Batman – O Cavaleiro das Trevas, o Homem Morcego aparece em uma sequência de ação em que acaba prendendo marginais e um vigilante que estava imitando-o. Porquê o Batman acorrentou aquele cidadão indignado com a violência em Gotham, sendo que ele estava apenas tentando fazer com as próprias mãos aquilo que o Estado não estava fazendo por ele? Qual a diferença entre o vigilante amador e ele? A resposta, “eu não uso almofada de hockey”. Leia-se, “não sou um amador”. Levando-se em conta de que não vivemos em uma história da DC Comics, quem tem poder de polícia na sociedade é, pasmem, a polícia, o único órgão que deveria está preparado para lidar com a criminalidade,
fazendo com que malfeitores sejam levados ao judiciário, para terem aquilo chamado de “devido processo legal”.


Recentemente todos vimos a situação dos bandidos que, pegos em flagrante pela população, foram amarrados a postes e/ou torturados pelos seus captores. Não é raro vermos na rua um marginal ser frustrado numa tentativa de assalto e sofrer um festival de socos e pontapés. Adotamos o “linchamento” de forma corriqueira, é a vingança imediata da população contra aqueles que nos fazem andar com medo na rua. Caso eu fosse assaltado, sofresse uma violência injusta ou visse um ente querido passar por isso, muito provavelmente seria cegado pela raiva e – extrapolando a legítima defesa - adotaria a barbárie, se tivesse a oportunidade. Essa seria a minha furiosa vingança, mas não seria justiça, e qualquer ato criminoso que eu cometesse contra aquele que motivou minha reação, não deixará de ser crime.

Caso fosse permitida esta retaliação passional da população, cedo ou tarde as menores ofensas gerariam as respostas mais graves, numa escalada da violência que culminaria na total desarticulação da civilidade, fazendo-nos entrar em um verdadeiro Estado de Guerra. Por isso, o Estado não pode ser passional, ele tem que ser preciso, cada ofensa julgada de forma isolada e todas as suas circunstâncias levadas em consideração para se deliberar a culpabilidade do ofensor.

Ter o discurso que o criminoso tem de ser preso e julgado ao invés de torturado não tem relação com ter pena do indivíduo, ou desejar “adotá-lo”(como sugerido por aí), mas apenas que não cabe a mim ou ninguém, como indivíduo, exercer o papel do Estado de julgar e aplicar pena. Nem o nosso já mencionado herói faz isso, uma vez que ele captura o bandido e o coloca à disposição da polícia para ser processado e julgado.

Não existe espaço para a vingança nessa questão pois somos humanos e tendemos ao erro e ao exagero: não acho que o furto de um relógio ou celular justifique a tortura e assassinato à sangue frio, que é o que acontece na grande maioria das vezes na “vingança popular”, ou você realmente acha que isso acontece apenas contra estupradores assassinos? Mesmo que fossem, é o Estado que tem de aplicar a pena, por mais omisso que ele possa ser e por mais que doa na gente. O aplauso à violência urbana alimenta o anseio por mais, inflama que isso se repita em um ciclo que será infinito enquanto não for posto um basta.


A vingança é o alimento insosso de uma noção distorcida de justiça pessoal, não é a justiça coletiva. Sou um humano falho e posso um dia desejar o sangue por sangue, mas sóbrio da cólera, tenho que saber o erro desse meu desejo para que um erro ainda maior não aconteça.

1 comentários:

Vish Cast disse...

hmm vamos acompanhar.

[ ]s

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